Aquecimento global
Aquecimento global
Para piorar a situação, o efeito estufa, que vem se acentuando nos últimos anos, deverá agravar o processo nas próximas décadas. Segundo o meteorologista Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o aquecimento global vai tornar as secas e as chuvas mais intensas nas regiões semi-áridas. Isto é, vai chover menos, mas quando isso ocorrer as precipitações serão mais fortes. "São justamente as condições que, aliadas à ação do homem, aceleram o processo de desertificação", diz. "Por isso, a tendência é de agravamento desse quadro."
As causas do fenômeno são várias. Entre elas, o uso inadequado das terras é uma das principais. "Normalmente, a falta de planejamento na ocupação do solo conduz à sobrecarga do meio ambiente, levando à degradação da terra e de outros recursos naturais, como a água e as florestas", explica o engenheiro agrônomo Luciano Accioly, da Embrapa Solos de Recife, uma unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Segundo ele, no nordeste, o uso para fins de agricultura e pecuária da região do semi-árido ocorre, na grande maioria dos casos, sem a utilização de tecnologias que reduzem, substancialmente, a perda de terras aráveis. "Dessa forma, as pastagens em geral têm mais gado do que poderiam suportar, levando ao sobrepastoreio, que prejudica o local", diz.
Além disso, algumas culturas, como algodão e milho, têm sido implantadas com o emprego de métodos que agravam o problema. "Práticas como a irrigação, que têm um elevado custo para o agricultor ou para o governo e que podem representar uma saída para a produção agrícola no nordeste, são utilizadas de forma inadequada, gerando a salinização de terras agricultáveis, que é, também, uma das causas da desertificação", alerta Lima. "O custo de recuperação de áreas com altos teores de salinidade pode ser maior do que o da irrigação. Portanto, uma vez salinizadas, essas terras são abandonadas."
Para o geógrafo João Osvaldo Rodrigues Nunes, do Departamento de Geografia da Faculdade de Ciências e Tecnologia, do campus de Presidente Prudente da Universidade Estadual Paulista (Unesp), essa situação decorre da ação humana sobre as paisagens com tendência a virar deserto. "A partir desse aspecto, que serve de catalisador do processo, podem-se destacar algumas causas específicas", explica. "Entre elas, a implantação inapropriada de técnicas de uso intensivo de implementos agrícolas, com base na monocultura, sobre ambientes ecologicamente frágeis; atividades de mineração intensiva sem técnicas de controle das drenagens superficiais com excessivo revolvimento das coberturas; o uso intensivo de solos com textura arenosa em ambientes semi-áridos; e a redução da biomassa por meio do desmatamento em cabeceiras de drenagem e matas ciliares, em áreas de preservação permanente."
Solo pobre
A desertificação não é o único processo, no entanto, que torna improdutivas vastas áreas. Existem grandes espaços aparentemente sem sinal de vida ou água, mas que não se enquadram na categoria de deserto. São os chamados areais ou regiões de arenização, que no Brasil aparecem no Rio Grande do Sul e na região centro-oeste. Sua origem remonta a 200 milhões de anos, quando a maior parte do centro-sul brasileiro era um imenso deserto. Hoje, essa área é conhecida geologicamente como formação Botucatu – um solo pobre, com muita areia em sua composição.
A diferença básica entre os dois fenômenos está na quantidade de chuva que o local recebe. A primeira conferência das Nações Unidas destinada a discutir o assunto, realizada em 1977 em Nairóbi, no Quênia, definiu a desertificação como "diminuição ou destruição do potencial biológico da terra que poderá desembocar, em definitivo, em condições do tipo deserto". De acordo com a geógrafa Dirce Suertegaray, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o território gaúcho não é uma região afetada por isso. "Ele está localizado numa região de clima subtropical, com precipitação média anual de 1,4 mil milímetros", explica. "Assim, está fora da zona onde o clima é o motivo principal da degradação. Por isso, os areais, no Brasil, são denominados área de atenção especial."
Dirce sabe do que está falando. Há mais de dez anos ela estuda a questão e recentemente organizou e publicou, com colegas, o Atlas da Arenização – Sudoeste do Rio Grande do Sul. Nele, ela mostra que hoje o problema atinge dez municípios daquela região, em torno de Alegrete, Quaraí e São Borja, totalizando uma área de 36,7 km² já arenizados e mais 1,6 km² que segue o mesmo caminho. Dirce também demonstra que o fenômeno é mais antigo do que se imagina. "Povos caçadores-coletores já conviviam com ele há séculos", diz. "Mas isso foi agravado pelo uso inadequado do solo, principalmente pelo cultivo da soja."
Essa é, aliás, a causa da arenização que ocorre em algumas regiões do cerrado, principalmente em Goiás. Segundo o professor Archimedes Perez Filho, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a retirada da vegetação nativa e a introdução da cultura da soja, após a utilização do cerrado pela pecuária, vem provocando o assoreamento de rios, como o Araguaia, principalmente nas cabeceiras dos afluentes que o formam, e intensificando a erosão de grandes áreas, um fenômeno que tem acompanhado o processo de arenização. São enormes manchas expostas, oriundas da formação Botucatu, constituídas de areia (grãos de quartzo) e localizadas em diversas áreas do território brasileiro. A ação dos ventos sobre a superfície e a criação extensiva de gado aceleram esse processo, tornando o solo improdutivo e degradado. Pode ser o prenúncio de futuros desertos.